Webmail
Busca

O MEL DO PODER

 Essa expressão, eu a ouvi pela primeira vez de Fidel, acusando os ministros demitidos do governo do seu irmão Raúl de “desvios revolucionários. Estariam, pois, embriagados pelo “mel do poder”. Achei curioso, porque não sabia que mel embriaga. Conheço governantes que preferem infusões mais fortes, entre a caninha (não vou citar nomes) e uísque Logan de 12 anos, especialidade do ex-presidente Collor. Por sinal, pelas mãos de Sarney, ele está voltando. E que Deus nos proteja desse retorno, pois dos políticos já não podemos esperar mais nada.

Raras vezes, no Brasil, aquilo que os gregos chamavam de “moira” e os romanos de “fatum” (fado, destino) foi tão pródigo para com um homem público como tem sido para com o senador Zé Sarney. Nasceu com as costas voltadas para lua.

Autêntico camaleão político, ele atravessou, incólume, todas as etapas da nossa vida pública. Bem moço, integrou a Bossa Nova udenista, que namorava o governo Jango. Logo consolidou seu poder sobre o Maranhão, feudo da sua família, embora continue sendo um dos estados mais atrasados do País. Deposto Jango, esteve entre os “revolucionários” da primeira hora, apoiando tudo o que se fez no Brasil pões 64, incluindo os atos institucionais, que eliminaram a democracia.

Quando quiseram restaurá-la foi o primeiro nome lembrado por Tancredo para ocupar a vice-presidência, ofuscando a figura histórica de Ulysses, que deveria ocupar a Presidência da República, vaga com a morte de Tancredo. Era um cargo sem dono, que não fora sequer preenchido. Mas quem acabou no Planalto? O inefável, o eterno Sarney, democrata de plantão com trânsito revolucionário, e portando mais confiável pelo militarismo desconfiando e recalcitrante.

Fez um governo anódino, incaracterístico, com a inflação beirando os 90 por cento ao mês. Seus planos econômicos esvaziaram as prateleiras dos supermercados. Além disso, distribuiu concessões de rádios e TVs a torto e a direito, beneficiando todos os seus amigos políticos, que ajudaram a construir no Brasil o império de desinformação e da dominação da consciência cidadã através do jornalismo dirigido, vassalo do poder.

Não satisfeito com sua fortuna política, invadiu a seara literária com livros intraduzíveis em bom vernáculo e acabou refestelado na benevolente Academia Brasileira de Letras, onde, ao lado de alguns valores, confraterniza com uma legião de bons velhinhos das letras magras, num convescote de flácidas benemerências (ou jogos de agrados). As letras que se danem.

Diante de tão opulenta sina, que mais deveria desejar o venturoso Sarney senão aposentar-se com dignidade, proteção dos seus impecáveis bigodes? Mas não. Irrequieto, anda mexendo em todos os escaninhos da política brasileira e, ainda recentemente, voltando a eleger-se presidente do Senado, começou a trazer de volta o que há de mais indesejável no cenário nacional, com destaque para os notórios Collor e Calheiros. É padrinho e protetor de ambos, esse homem que já foi presidente da Republica e, mais do que ninguém, deveria zelar e trabalhar por um Brasil digno, sério e politicamente decente.

 Já tiveram os leitores ocasião de rever Collor na TV? É o mesmo homem arrogante (apenas envelhecido) deposto da Presidência por avassaladora e comprovada corrupção, chefe de uma quadrilha cujo ostensivo testa-de-ferro acabou assassinado. Mas é sobretudo – e isto não pode nunca ser esquecido – o mesmo homem insensato e prepotente (além de incompetente) que confiscou a poupança e as contas bancarias de todos os brasileiro, muitos dos quais levados ao desespero, à ruína e à miséria, privados das economias que conseguiram reunir, com sacrifício, por anos continuados. Será que tudo isto pode ser amaciado e levado na costumeira galhofa nacional, simplesmente porque o Sr. Sarney resolveu trazer de volta a escória em favor dos seus insaciáveis apetites políticos?

Enfim, o mel do poder é o mal do poder ou fel dos brasileiros. Mais do que nunca, o cidadão tem o dever de vigiar essas figuras para marcá-las com o seu desprezo, convicto de que através das lideranças desmoralizadas só obteremos o desmoronamento definitivo das nossas degradadas instituições políticas.

JC TEIXEIRA GOMES | Jornalista, membro da Academia de Letras da Bahia. E-mail: jcteixeiragomes@hotmail.com

Publicado no Jornal A Tarde Salvador – Bahia na quarta-feira, 18 de março de 2009 - Coluna Opinião - PG A3 – Editor Jary Cardoso.

Imagens relacionadas:

Não há imagens cadastradas junto a essa notícia.

Outras Notícias

DE OLHO NAS ELEIÇÕES 2010 DECISÃO INACREDITÁVEL DO STF CHOVER NO MOLHADO Mais Notícias

Av. Tancredo Neves, 274 - Centro Empresarial Iguatemi, bloco B, salas 101 / 104. Salvador / Bahia
CEP. 41820-907 - Telefone (71) 2223-9949 / 2223-9786