Evilásio Menezes de Almeida
“A filosofia está escrita nesse imenso livro – O Universo – que permanece continuamente aberto aos nossos olhos. Mas o livro não pode ser compreendido, a menos que primeiro aprendamos a linguagem e interpretemos os caracteres com que ele foi escrito”.
Galileu Galilei
“Em cada momento da nossa existência, há uma relação da nossa vida própria com o mundo que nos rodeia, como um todo intuitivo”.
Wilhelm Dilthey – A Essência da Filosofia
Pelo que nos revelam essas inteligências excepcionais, a vida se manifesta num sistema de interação em todos os estados de consciência, Nesse processo solidário, cada ser humano tem determinada tarefa dentro do contexto que escolheu para atuar no mundo físico, O brilho dessa vocações está diretamente ligado à capacidade do executante, quando ele interpreta a sua missão dentro da realidade histórica.
Corria o ano de 1958. Era um ano de muitas expectativas na área do progresso industrial. O petróleo era o foco desse momento. A Nação estava mobilizada pela campanha “O Petróleo É Nosso”. Eram enormes as possibilidades de emprego na indústria petrolífera, Mataripe ardia em ânsias de crescimento. A fermentação era de tal modo contagiante que, de todas as partes da Estado e do Pais, chegavam homens e mulheres para se ficharem no Petróleo.
Terminada a Obra da Matamplia, também me incorporei à multidão que pretendia ingressar na Petrobrás. Fiz testes na Sessão de Pessoal e aguardei impaciente o resultado da prova. Semanas depois, fui chamado para entrevista e saí muito feliz por haver conseguido entrar para a Refinaria.
Foi aí que vim a conhecer a grupo de líderes que comandavam os destinos daquele operariado incipiente e ignaro, que viria a fazer história futuramente na Bahia. Naqueles dias ainda não era Sindicato. Era Associação, um projeto ambicioso comandado por Osvaldo Marques e Mário Lima.
Foi nessa época que conheci, pela primeira vez, os dois gigantes da Refinaria, esclarecendo à massa sobre os futuros projetos de luta: Osvaldo Marques, homem feito, forte, moreno destemido, de voz mansa e pausada, mas cheia de determinação, e Mário Lima, nesse momento já fadado à liderança gloriosa, era uma figura destemida, afoita mesmo, provocante, com um olhar de visionário num futuro distante que prenunciava vitórias. Mário era um visionário mesmo!
Vivia para o futuro como compete ao líder nato. Cercou-se de companheiros leais, como Dutra, Milton Oliveira, Maranhão, Osvaldo Marques, Reinaldo Mangabeira, Luciano, Djalma Marques, Suez, Gaguinho, Vivaldo, Emanuel, Sinézio, Edimar e alguns engenheiros que o apoiavam na surdina.
Não vou relembrar a história em toda a sua extensão, porque ela está viva, indelével na memória de todos os petroleiros da ativa e, principalmente na memória dos aposentados e anistiados, dos que sofreram na carne as agruras do golpe militar.
Recordo que, às vésperas do São João, lá no Quartel do Barbalho, quando os companheiros foram transferidos para Mont Serrat, enquanto que só ele e eu ficamos naquelas masmorras, vimos a noite chegar, a solidão, e uma saudade angustiante dos filhos e da esposa. Confesso que eu chorei muito. Eu creio que, lá na sua cela solitária, Mário também chorou.
Líder nacionalmente reconhecido, nunca se rendeu ao patrulhamento ideológico dos companheiros do Rio e de São Paulo. Ele era autêntico.
Com essa crônica, rendemos a homenagem póstuma que ele sempre mereceu. Minha eterna consideração por um líder, um companheiro que fez tudo para cumprir a sua missão e cumpriu.
“O trabalho criativo será estéril, afirma Arnold Toynbee, se não produzir algo que tenha valor social. O pensador, o poeta, o artista, o profeta precisam de público”. Parafraseando o autor da obra “Sociedade do Futuro”, afirmamos que a saga dos trabalhadores do petróleo seria estéril se os exemplos dos líderes como Mário Lima não fossem seguidos ou não tivessem continuidade. Felizmente a nossa luta teve êxito e o reflexo das nossas batalhas devem deixar um saldo social muito grande para a luta do Povo Brasileiro.
Como dizia Paulo, o apóstolo, referindo-se ao Evangelho, partindo dos rudimentos de nossa luta, almejamos a conquistar um desenvolvimento para nossa Nação, tendo como modelo a evolução da luta social, iniciada pelos trabalhadores da Petrobrás.
Aposentados e Anistiados hoje contemplam a trajetória do movimento operário como resultado de um grande esforço de superação da própria Nação Brasileira para atingir o patamar que atingimos até agora. Não é ainda o ideal, mas apenas o possível dentro deste conceito de aspirações e vontades conjugadas. Como conseqüência desse processo, queremos contribuir para o amadurecimento desses ideais, tornando a luta social mais abrangente e transformadora, proporcionando aos trabalhadores as possibilidades de atingir outros patamares mais avançados qualitativamente.
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Evilásio Menezes de Almeida é anistiado político do Sistema Petrobrás.
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