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A VERDADE SOB OS REFLETORES

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ARTIGO

A verdade sob os refletores

Victória Grabois

De 1972 a 1974, do Sul do Pará ao Norte de Goiás, hoje estado de Tocantins, aconteceu o movimento conhecido como a Guerrilha do Araguaia. Meu pai, Maurício Grabois, era o comandante. Também fazia parte da Comissão Militar meu marido, Gilberto Olímpio Maria. À frente de um dos três destacamentos estava meu irmão André Grabois. Todos militantes do Partido Comunista do Brasil.

No total, eram 69 cidadãos e cidadãs, estudantes, professores, médicos, economistas, engenheiros e operários, mais os camponeses que aderiram ao movimento. Dez sobreviveram. Todos os demais, em sua maioria jovens que saíram de suas casas e não disseram para as famílias para onde iriam, desapareceram.

Quando surgiram as notícias do ataque do Exército aos destacamentos, as mães saíram em busca de seus filhos; elas e todas as outras mães dos países do Cone Sul que procuravam notícias ou os corpos dos filhos e filhas que militavam em organizações políticas.

No Brasil, no início, a busca dessas mulheres era clandestina e individual. Com o tempo, ainda isoladas e sem visibilidade, formaram uma rede. A Lei da Anistia, em 1979, garantiu significativos avanços e as levou à realização de congressos. O primeiro em São Paulo. Em 1980, na Bahia, decidiram seguir em caravana até a região da guerrilha para saber, de fato, o que havia acontecido.

Eu estava lá e lá comemorei, emocionada, meu aniversário. Durante 15 dias, vasculhamos o passado e constatamos que na população local a coragem e a solidariedade daquele grupo ainda estavam vivas. Fomos recebidos como celebridades e houve uma localidade em que a caravana foi saudada com fogos de artifício.

Com farto material gravado e grande número de informações foi divulgada uma carta-denúncia à nação: 22 famílias entraram com uma ação contra o Estado brasileiro para saber a localização dos corpos de 25 guerrilheiros. O governo brasileiro impetrou 16 recursos e só em 1996 fez a sua primeira incursão oficial à região.

Hoje, dos 59 que desapareceram apenas Maria Lúcia Petit e Bérgson Gurjão Farias foram enterrados. Ambos os casos frutos de buscas e descobertas dos familiares, com o apoio da Igreja progressista, da OAB nacional e dos movimentos de direitos humanos.

A morosidade da Justiça brasileira levou à ação na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, tendo o Centro pela Justiça e o Direito Internacional (Cejil) como peticionário e como copeticionários o grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro e a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos de São Paulo.

Está previsto para amanhã e depois na Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), em São José da Costa Rica, o primeiro julgamento internacional contra o Brasil por crimes cometidos durante a ditadura militar brasileira caso Gomes Lund e outros, também conhecido como Guerrilha do Araguaia.

Lutamos na clandestinidade, enfrentamos todo tipo de tortura moral e finalmente fomos mais uma vez vítimas da decisão inaceitável do Supremo Tribunal Federal de estender a Lei de Anistia aos agentes públicos e privados que perpetraram crimes comuns em nome da ditadura militar. Para o STF são crimes conexos aos crimes políticos.

Os agentes do Estado que sequestraram, torturaram e desapareceram com inúmeros brasileiros cometeram crimes de lesa-humanidade. Crimes conexos cometeram aqueles que, como eu, viveram durante 16 anos com nome falso. Falsidade ideológica, isso sim, é um crime conexo, como única forma de sobreviver, se não estaria morta ou desaparecida.

O Brasil, hoje uma sociedade democrática, regida pelo estado de direito, signatário de pactos e convenções internacionais, estará finalmente sob a luz dos refletores, chamado à responsabilidade pela afronta à nação brasileira e o desrespeito às leis internacionais.

Não queremos revanche, queremos justiça. O País precisa conhecer o seu passado e ser responsabilizado pelos crimes que cometeu para que a violência de Estado seja definitivamente uma página virada da história. Está no cenário internacional a última esperança.

 

Fonte: O Globo - 20/05/2010.

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